O pecado original ou “ninguém mandou ter filhos”.

Às vezes, nos deparamos com a triste realidade social.

Confesso que vivo num mundo, digamos, privilegiado. A maior parte das pessoas com quem convivo tem, no mínimo, um curso universitário – às vezes mais. A grande maioria desses possui pelo menos um curso além do universitário: pós-graduação, mestrado, doutorado (na minha realidade, isso é comum), e às vezes mais.

Falam ou “arranham” mais do que um idioma para além do português.

O nível de consumo também é alto, em relação à média da população brasileira.

E contando então que trabalho na Educação – 99% dos meus colegas de trabalho são professores e atuam em sala de aula em pelo menos um período, seja com crianças, adolescentes ou adultos. Ou seja, se não são propriamente “formadores de opinião”, tem uma influência relativamente grande na formação da opinião das massas.

E então, circulando por esse meio social, você ouve frases como a que ouvi hoje.

– Ninguém mandou ter filhos.

O contexto era: avós como cuidadores dos netos. Avôs e avós de boa vontade, que se prontificam, inclusive, para deixar suas casas e viajar para poderem cuidar dos netos em outras cidades, enquanto seus filhos trabalham e estudam, e as escolas estão em férias. Avós que trazem os netos para suas casas durante vários dias, enquanto seus filhos e filhas, e noras e genros, estão também de férias.

Ora, mas não podem os pais cuidar de seus próprios filhos, quando estão em férias do trabalho?

E eu vos pergunto além: e os pais não podem ter uns dias sem os filhos, se os avós ou outras pessoas próximas se prontificam para isso?

E nisso veio a resposta que ouvi.

Nesse meio social letrado, com acesso à cultura, que lê centenas de páginas todos os anos, que acompanha os jornais e o cenário político atual do Brasil e do mundo, a opinião que mais se ouve é:

– Quem pariu que balance.

– Quis abrir as pernas, agora aguenta.

– É a mãe, tem que cuidar.

Já ouvi essas três frases, de pessoas diferentes, em situações parecidas com a que descrevi: pais e mães que desejam (ou precisam) ter momentos adultos, após terem filhos.

Essas pessoas não sabem, mas, mesmo tendo diferentes religiões, e algumas sendo ateias, inclusive, acreditam no pecado original, e em toda a cultura que se construiu ao redor disso.

Para esse grupo com quem tenho o prazer de conviver diariamente, a paternidade e a maternidade são um castigo que se escolhe voluntariamente.

Para algumas dessas pessoas, inclusive, muitas delas formadoras de opinião em escolas e faculdades, a mulher é a maior responsável pelo(s) filho(s) que venha a gerar.

– Olha só, quer trabalhar/fazer faculdade/nãointeressaoquê e escraviza a avó/tia/etc, a cuidar da criança que é dela… Se vira, minha filha! Ninguém mandou fazer, não!

– Ah, tá, você quer dar uma ida ao bar/shopping/nãoimportaaonde com suas amigas após o expediente? E seu filho fica com quem toda sexta? Com o tio/avô/babá/pai/etc? Essa daí não quer cuidar, não…

– Ah, tá, vocês querem viajar e deixar os filhos um mês na casa dos avós/parentes/cuidadores? Que bonito, hein?

A crença no pecado original não escolhe religião, gênero, idade, orientação sexual, condição financeira, condição social.

Para essas pessoas, uma discussão que talvez nunca tenha fim, tão controversa que deve ser em seus micro-encéfalos, nos quais não há espaço para a ocitocina:

– Existe vida após os filhos?

 

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