Desfralde: todo mundo tem dúvidas! (minhas experiências e algumas considerações sobre o assunto)

(ATENÇÃO: essa postagem não se trata de mais um case de sucesso da vivência materno-infantil da internet brasileira. Texto não recomendado para quem tem problemas com altas doses de realidade.)

Andei sumidinha, né?

Admito que a vida anda corrida demais, e com um compromisso se acumulando sobre outro, algo desanda, e nesse caso, foram os textos daqui do blog!

Mas eu voltei, e agora para comentar sobre algo que eu acho necessário e de extrema importância.

Eu sempre me gabo de ter feito um estágio de mãe antes de ser mãe – minha irmã é “mãe-solo” e, nos primeiros quase quatro anos de vida da minha sobrinha, ela continuou na casa de nossos pais; por sinal, minha sobrinha dormia no meu quarto, então, eu aprendi desde cedo sobre noites mal-dormidas e o efeito aterrador disso no humor e na psique humana em geral.

Mas se teve um processo do qual eu (e nem a minha irmã, para falar a verdade) participei direito foi o desfralde.

Se por um lado eu estava totalmente (hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha – pausa para respirar – hahahahahahahahahahahahahahahahaha…) preparada para amamentar, ficar sem comer, sem dormir, balançar criança uma noite toda, passar noites e noites no PA infantil, enfiar antibióticos goela abaixo, dar banho em bebês esperneantes, lidar com os tombos que antecedem os primeiros passos, supercílios abertos, entre outras coisas, eu não fazia nem a menor ideia de por onde começar quanto ao desfralde. A senhora minha mamãe assumiu completamente o leme nesse quesito, e aparentemente tudo deu muito bem certo, obrigada. Parecia não haver segredo. Era esperar o momento certo, com um pouco de feeling, e tcharaaaaam!…

Só que não.

Em casa estamos finalizando esse lento, longo e doloroso processo.

Aí você pergunta para a sua amiga-irmã, para as colegas de trabalho e para as mães da escolinha: como está sendo/foi com vocês?

E a resposta padrão que eu ouvi (juro, sem exceção) foi:

– Aaaah, foi tranquilo! Um belo dia tirei a fralda e ele/a nunca mais fez no chão, na calça ou na cama, simples assim. Vai por mim, é só tirar.

Aí eu li, li, e li mais ainda, e reli, e falei com psicólogos (sim, no plural), e observei tudo o que dizem que é pra ver no comportamento da criança e, junto com o papai quase-perfeito, chegamos à conclusão de que era o momento.

Heloísa estava com 2 anos e 4 meses, na época. SEMPRE pedia para ir ao banheiro. Não suportava mais a fralda suja. Passava noites e noites inteiras sem molhar as fraldas. Pedia para se limpar. Intestino funcionava como um relógio, todos os dias religiosamente no mesmo horário. Enfim, tudo como dizem que é quando, teoricamente, a criança “está pronta” para sair das fraldas. A idade, condizente. E era fevereiro, o último mês bem quente aqui em Curitiba. Depois começa um longo e tenebroso inverno até outubro ou novembro e que dificulta a lavagem das montanhas de roupas e lençóis com urina e fezes, além de deixar o chão mais difícil de secar.

Passamos alguns dias conversando com ela e, uma bela manhã, tiramos a fralda.

“Tá tranquilo, tá favorável”, cantarolamos baixinho…

E foram duas longas semanas de xixi no chão, na roupa, no sofá, na cadeira, no canto, em todos os lugares, MENOS no penico e no banheiro.

Papai quis desistir. Vovó disse que estávamos errados. Pesquisei sobre o retrocesso no processo.

Como paladina do desfralde, segui eu meus instintos maternos, que a crença popular diz estarem sempre corretos, e decidi não recuar.

Talvez tenha sido um erro.

Levou mais ou menos 3 meses para que ela conseguisse adquirir um controle, digamos, razoável. Com “razoável” eu quero dizer que ela fazia fora do lugar no máximo 3 dias na semana, uma vez ao dia. Na cama, eram raros os escapes.

Tiramos a fralda noturna simultaneamente. Pelo que li, não há um consenso sobre isso, mas resolvemos que seria menos trabalhoso. E, incrivelmente, era mais fácil controlar o xixi noturno que o diurno. Eu a colocava no penico uma vez na noite, e geralmente ia tudo bem. Mas aí veio o longo e tenebroso inverno curitibano, e só Deus sabe por que motivo as crianças fazem mais xixi nas calças e na cama quando sentem frio.

Depois de ficar completamente sem lençois e cobertores para ela por duas semanas, resolvemos que era melhor, pelo menos temporariamente, retomar a fralda noturna.

Hoje, quase 7 meses depois de iniciado o processo, podemos dizer que estamos “sob controle”. E com “sob controle” eu quero dizer que ela suja as calças bem raramente. Coisa de um bebê grande, mesmo, como por exemplo: num dia quente, toma suco e água demais e nós, adultos distraídos, esquecemos de levá-la ao banheiro com mais frequência; ou quando ela está com um amiguinho ou amiguinha em casa e se distrai na brincadeira, fica segurando o xixi até que… escapa.

A fralda noturna continua, pois só agora o inverno está dando sinais de que vai ficar mais suave.

Muita conversa rolou com ela, mas também muito entre nós, adultos. Eu fiquei muito estressada, pois além do desfralde dela, estava com a n#2 bem pequena e dependente. Não foram poucas as vezes em que eu estava acompanhando uma no vaso sanitário e com a outra mamando no peito! Fora que as acordadas noturnas da n#2 eram constantes, e no meio disso, ainda tinha que levar a outra para o penico. Já o papai quase-perfeito estava estressado demais com essa situação toda e vira e mexe perdia a paciência. Então houve sim bastante diálogo para afinarmos o discurso na hora de falar com ela e como demonstrar que nós não aprovávamos o xixi fora do lugar, mas respeitando os limites emocionais, físicos e cognitivos dela.

Numa conversa com a psicóloga que a atendeu tempos atrás, fiquei sabendo que sentimentos como vergonha, receio, medo, sensação de não-pertencimento e de culpa afloram e passam a fazer sentido apenas quando o desfralde acontece. Se você submeter uma criança muito nova a esse tipo de sensação, pode ser que ela tenha problemas de auto-estima e auto-imagem no futuro, por exemplo – por ter ouvido muito precocemente, e muitas vezes, coisas como “você está fazendo no lugar errado”, “isso que você fez não está certo”, “você precisa se controlar”, “os outros acham feio quem suja a roupa”. Elas não têm ainda bases emocionais para lidar com essas críticas, e, principalmente, se o desfralde for precoce, elas não têm estrutura física para segurar a urina e as fezes.

“Considerando que o desfralde também é um processo de auto reconhecimento, ele é um processo individual, pertence à intimidade do lar, e apenas as pessoas do convívio constante da criança podem intervir. A forma como ele é abordado pode influenciar a autoimagem e a autoestima de nossos pequenos. O constrangimento causado pelo desfralde precoce e uso de métodos como deixar sujo por longo tempo, reprender, deixar de castigo, deixar sem prêmio, receber cobranças familiares, ouvir conversas com comparações com outras crianças (mesmo irmãos), ter exposta sua intimidade (fotografando-a no trono ou contando sobre os acidentes para terceiros), não ajuda em nada, pelo contrário: pode atrapalhar bastante o processo de autoreconhecimento e o próprio desfralde, causando sofrimento intenso.” (1)

Você conhece alguém que tem receio de fazer necessidades fora de casa?

Conhece alguém que viaja e pronto, só consegue voltar a ir ao banheiro quando voltar para casa?

Pois bem, segundo ela, pode ser que essa sensação tenha sido gerada lá nos tempos imemoriais do desfralde dessa pessoa.

Além disso, há o hábito de apresentar as fezes e a urina como algo “nojento”, e não precisa ser assim. São resíduos, sim, não devem ficar contato com a pele e mãos para não causarem doenças, mas não precisam ser tratados com nojo. Isso pode até criar a sensação na criança de que é algo que não deve ser feito, levando à prisão de ventre, infecções urinárias e outras coisas.

Agora, cá entre nós, esse é um problema muito mais presente no universo feminino. E sabe por que? Porque desde cedo os meninos são estimulados a tocarem seus genitais no momento da urina, e, por isso, se tocar, para eles, “não pode” ser algo nojento, já que é necessário para o ato de urinar. Já para as meninas, além de todo um cuidado na hora de se limparem (quem aí ensinou os menininhos a se limparem após o xixi ganhou meu respeito), é ensinado que elas não devem fazer isso o tempo todo, que é desnecessário, que é nojento. A ideia de tocar seus genitais e suas excretas, para as meninas, não é algo que faz parte do processo, mas sim algo a ser evitado.

Assim fica fácil entender porque esse tipo de questão é um tabu muito mais feminino que masculino.

Claro que faz parte dos costumes da nossa cultura e eu, particularmente, ainda não consegui entender por que raios os meninos não podem ser ensinados a urinarem sentados e a se limparem. Se alguém aí souber, por favor, compartilhe.

Pode parecer bobagem, mas esse tipo de informação que recebemos na primeira infância – o nojo, a vergonha, o medo – fica no inconsciente e é determinante para vários comportamentos e atitudes no futuro, e por toda a vida. Daí tanto cuidado e preocupação com a infância, em especial a primeira infância.

Eu separei algumas referências que consultei no antes, no durante e no depois e vou compartilhar aqui com vocês.

Elas aparecem, eventualmente, no texto, com o número indicado aqui.

REFERÊNCIAS:

(1) Desfralde com respeito – entre cuecas e calcinhas – http://www.cientistaqueviroumae.com.br/blog/textos/desfralde-com-respeito-entre-fraldas-calcinhas-e-cuecas

Texto belíssimo, sensível e esclarecedor de Zioneth Garcia para a plataforma Cientista que virou mãe (sou fã).

 

(2) Dicas para o desfralde – http://www.macetesdemae.com/2013/10/dicas-para-o-desfralde.html

Texto da psicóloga e mãe Raquel Suertegaray. Esse é um texto mais prático, com dicas mais objetivas sobre como perceber o momento do desfralde. Embora nada seja tão objetivo assim na vida, você pode precisar.

 

(3) Como o preconceito (e a ignorância) me pegaram na esquina, ou “Vamos falar de xixi e cocô?” – http://www.cientistaqueviroumae.com.br/blog/textos/como-o-preconceito-e-a-ignorancia-me-pegaram-na-esquina-ou-vamos-falar-de-xixi-e-coco

Texto da Ligia Moreiras Sena, criadora da plataforma Cientista que virou mãe. Fala sobre desfralde, arrependimentos e cuspidas para cima que caem na cara, mais cedo ou mais tarde – #tamojunto, Ligia!!

 

(4) Desfralde – here we go! – http://mae-na-roda.blogspot.com.br/2014/01/desfralde-here-we-go.html

Uma descrição bem atenta do desfralde da autora do blog, Marcela Bitani Belo, e algumas dicas interessantes.

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