O dia das mães e a mãe quase-perfeita

Quando vemos aqueles risquinhos no teste da farmácia (depois do susto, do mini-enfarto e da crise de choro, que levam de algumas horas a alguns dias para passar), logo romantizamos a mãe que iremos ser.

Imaginamos o quanto seremos pacientes, as brincadeiras que iremos criar, a base que iremos usar para disfarçar as olheiras (sim, romantizamos até a parte ruim), as histórias que vamos ler com alegria ao lado do ser amado antes de dormir…

Aí nasce você. Sim, nasce uma mãe junto com a criança, não é papo de propaganda de produto para bebê, não. Aquela função social não existia na sua vida até aquele momento.

E junto com o nascimento da mãe, bate a realidade.

Você não sabe nada sobre a sua criança. E não sabe nada sobre a mãe que você é e está construindo a cada dia no ofício de ser.

Nada. Nadinha.

E não tem como adivinhar como você será, por mais psicanálise e meditação transcendental que você tenha feito na sua vida toda, independente de quantos anos você tem, de experiências anteriores com sobrinhos, afilhados…

Talvez você precise fazer aquilo que julgava “errado”, e não apenas uma vez.

Talvez você acabe recorrendo a métodos menos ortodoxos, vez ou outra…

Talvez procure uma “luz” na internet, pois todas as sugestões das pessoas próximas à você falharam.

Serão muitas e muitas descobertas sobre a pessoa que você carrega em seus braços, e sobre a pessoa que você está tentando ser – mãe.

E aí vem o dia das mães. E você pode descobrir que aquela mãe fofa, dedicada, sentimental, não é você.

Sim, eu falhei. E é porque falhei, e nem estou perto de ser uma “mãe quase-perfeita”, que estou escrevendo esse texto.

Mãe de duas.

Ainda em licença, pois tenho a sorte de poder ficar praticamente 7 meses ao lado da minha pequena.

A “grande”, com 2 anos e meio, já na escola desde o berçário, traz da escola um bilhete na agenda:

“Comemoração do dia das mães na sexta-feira, à partir das 17h30, na escola.”

Como ela está na mesma escola desde o berçário, já deduzimos o modus operandi da festinha: mamães chegam na escola e ficam esperando do lado de fora do portão (sim, lá é desse jeito) até 17h40, a comemoração começa quase 18h, todos fazem uma atividade juntos, abraços, foto, selfie para o Facebook, vamos para casa felizes e contentes, cada qual com seu papel social bem cumprido.

Mas agora eu sou mãe de duas. Incluindo uma bebê de 5 meses. E a semana foi bastante chuvosa e fria. Como fazer?

A ideia era simples: chego bem em cima da hora e não preciso ficar esperando do lado de fora com a bebê, na chuva. Entro, a deixo com a secretária da escola, vou para a “festa” e tudo fica bem. Certo?

Errado.

Estacionei o carro em frente a escola às 17h38, exatamente. Quando abro a porta do carro, escuto uma música alta vindo de dentro da escola. Sim, já tinha começado.

Como eu ia adivinhar que justo dessa vez eles seriam pontuais?!?

Corri com o bebê conforto para dentro da escola, nem lembro com que a deixei na entrada, e corri para a sala da minha menina.

Tarde. Todas as mamães sentadas. Cada filho em frente à sua mãe. Cada mãe segurava uma flor e a criança cantava olhando para a mamãe.

Menos a minha.

Ela estava com a professora, com um rosto bem triste.

Cheguei e, claro, quase joguei a pobre professora da cadeira. Abracei, beijei, ela sorriu, mas ficou um pouco sem graça, ainda. Depois, durante as atividades, ela se animou, riu, brincamos juntas, foi feliz para casa, no carro.

Mas o peso que eu carreguei e estou carregando até agora, olha… É grande.

Algumas amigas me disseram que estava tudo bem, que eu cheguei só um pouco depois que a música tinha começado, e que tudo ficaria ok. Usei essas palavras para me consolar e não passar o resto da semana chorando, porque no dia eu chorei horrores, obviamente.

Fiquei profundamente decepcionada comigo mesma.

Que tipo de mãe se atrasa para a comemoração do dia das mães, podendo chegar antes?

Será que era realmente importante cuidar da chuva? Será que eu não devia ter tido mais cuidado com a pequena, que já anda enciumada da irmã mais nova?

O que dirá o pai? O que dirá a sogra (única avó viva)? O que dirá a professora?

O mais importante: o que ela vai pensar, dizer, lembrar de mim?

Que tipo de dor eu posso estar gerando nesse pequeno ser? E por quanto tempo isso vai doer?

A gente idealiza até mesmo nossos erros. Mas esse tipo de erro não costuma fazer parte do “pequeno livro de pisadas na bola da mãe ideal”.

mother-and-son-887058_640

Mas aconteceu. Já está escrito. E agora?

Agora só com o tempo para saber se ela vai se lembrar rindo ou chorando.

Esta semana ela se lembrou, do nada. Estávamos fazendo o “mamá” da manhã no sofá da sala, quando ela parou de mamar e fez o seguinte relato, com o rostinho fechado, a testa franzida:

As mamães estavam lá, menos a minha. Eu fiquei com a profe. E eu chorei. Chorei de tristeza. Muita tristeza.

Eu tentei relembrar com ela todas as brincadeiras que fizemos depois. Ela se animou. E aí disse: você se lembra que eu cheguei depois? E ela franziu a testa de novo e só respondeu: “sim…

Sobre a memória da minha filha, usando palavras da pediatra dela, a memória dessa menina é prodigiosa. Ela se lembra com detalhes de fatos que aconteceram meses e meses atrás. Então, pode ser que ela esqueça, quando crescer. Mas também pode ser que não. É uma lembrança associada a uma emoção muito forte, que ela já sabe até nominar: tristeza.

E a responsável pela primeira memória de verdadeira tristeza na minha filha é quem?

Eu, mãe.

No dia das mães.

*******

Quando ainda estava grávida, uma amiga me enviou um vídeo. O mote desse vídeo é: o que você gostaria de ter ficado sabendo antes de ter filhos, mas ninguém nunca lhe contou?

São mães que escrevem em cartazes pequenas frases sobre o assunto. E duas frases ficaram marcadas para mim:

Frase número 1:

SIM, DOI.

Porque não doi só na hora que nasce. Ter filhos doi, e para sempre. Cada hora uma dor diferente: a dor das noites mal-dormidas; a dor de voltar (ou não) ao trabalho; a dor de desmamar, que cedo ou tarde acontece; a dor de vê-los adoecer; a dor de vê-los sofrer; a dor de abrir mão de algumas coisas pelo bem da família (sim, doi ver seus amigos indo passar as férias em resorts maravilhosos, e você tendo que se contentar com uma ida à praia mais próxima, só para não ficar enfiado em casa os 30 dias de férias); a dor de ver o tempo passar, inexoravelmente.

Frase número 2:

O PRIMEIRO FILHO É UM SOBREVIVENTE.

A frase é bem-humorada. Mas eu, mãe de segunda viagem, posso afirmar que ela é bem verdadeira.

Mas, assistindo ao vídeo novamente para poder escrever e colocar o link aqui, reparei em uma frase da qual nem me lembrava.

FAÇA O QUE QUISER. ELE SEMPRE SERÁ APAIXONADO POR VOCÊ.

(Será?)

Quer assistir ao vídeo? Clica nesse LINK.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s